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	<title>Sinval Medina &#8211; Ágora Eca</title>
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		<title>Professores cassados: Sinval Medina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ágora ECA]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 16 Jul 2021 16:49:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Professores]]></category>
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					<description><![CDATA[Sinval Medina: depoimento sobre a ditadura na ECA Começo recordando o significado da ECA e, particularmente, do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) no contexto da USP em 1971, ano]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4>Sinval Medina: depoimento sobre a ditadura na ECA</h4>
<p>Começo recordando o significado da ECA e, particularmente, do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) no contexto da USP em 1971, ano em que minha companheira Cremilda Medina e eu, formados em Comunicação Social (Jornalismo) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, emigramos para São Paulo com o objetivo de cursar o mestrado da ECA/USP, que seria implantado no ano seguinte. A convite do professor <a href="https://www.agoraeca.com.br/2021/06/04/professores-cassados-jose-marques-de-melo/">José Marques de Melo</a>, ingressamos na ECA como auxiliares de ensino. O país vivia uma das fases mais violentas da ditadura militar. A atmosfera repressiva dominava a universidade. Porém na ECA e, particularmente no CJE, respirávamos um clima de liberdade que beirava a ousadia. Integrávamos uma área de conhecimento muito recente, sem tradição científica, mal compreendida e mesmo desdenhada pelo conservadorismo então predominante no meio acadêmico. Além disso, éramos jovens da geração de Maio/68, nossas roupas, cabelos e atitudes confrontavam os padrões tradicionais. Aos olhos dos hierarcas uspianos, parecíamos mais alunos do que “mestres”.</p>
<p>Ou seja, o Departamento de Jornalismo era um ponto fora da curva numa instituição dirigida por reacionários. E aqui rendo minha homenagem ao meu querido amigo e ex-chefe <a href="https://www.agoraeca.com.br/2021/06/04/professores-cassados-jose-marques-de-melo/">José Marques de Melo</a>, responsável pela criação e sustentação desse núcleo de resistência à ditadura. Sob o comando de José Marques, o CJE se tornou uma usina de projetos e um centro de pesquisa e ensino com destaque nacional e internacional. Em sua gestão surgiram a Agência Universitária de Notícias, que se tornaria órgão laboratório-modelo para o ensino do Jornalismo no país; a Editoria de Textos, que publicou dezenas de títulos fundamentais para a bibliografia em Comunicação Social; estruturou-se a Gráfica da ECA como órgão laboratório; foram realizadas Semanas de Estudos de Jornalismo, que em sua quarta edição, em 1972, foi o maior evento do gênero até então realizado no país, com a presença de especialistas internacionais, professores e estudantes de todo o Brasil.</p>
<div id="attachment_21303" style="width: 1290px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-21303" class="wp-image-21303 size-full" title="Sinval e Cremilda Medina" src="https://www.agoraeca.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Sinval-e-Cremilda-Medina_agora_ECA.jpg" alt="Sinval e Cremilda Medina" width="1280" height="720" srcset="https://www.agoraeca.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Sinval-e-Cremilda-Medina_agora_ECA.jpg 1280w, https://www.agoraeca.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Sinval-e-Cremilda-Medina_agora_ECA-300x169.jpg 300w, https://www.agoraeca.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Sinval-e-Cremilda-Medina_agora_ECA-1024x576.jpg 1024w, https://www.agoraeca.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Sinval-e-Cremilda-Medina_agora_ECA-768x432.jpg 768w" sizes="(max-width: 1280px) 100vw, 1280px" /><p id="caption-attachment-21303" class="wp-caption-text">Sinval e Cremilda Medina</p></div>
<p>Logo, porém, o brilho do CJE começaria a incomodar a cúpula da USP e a própria ditadura. Trabalhávamos com informação, material explosivo para um sistema político que adotava a censura como forma de esconder seus crimes. Começou então a destruição sistemática do departamento. Professores passaram a ser afastados, em processos de “cassação branca”, ou seja, sem o ritual dos atos institucionais. O método permitia a demissão sumária, sem qualquer direito trabalhista. O primeiro a cair foi o professor <a href="https://www.agoraeca.com.br/2021/06/21/professores-cassados-jose-freitas-nobre/">Freitas Nobre</a>, bravo líder do MDB na Câmara Federal; seguiu-se o professor <a href="https://www.agoraeca.com.br/2021/06/13/professores-cassados-thomaz-farkas/">Thomaz Farkas</a>; depois, <a href="https://www.agoraeca.com.br/2021/06/04/professores-cassados-jose-marques-de-melo/">José Marques de Melo</a>; finalmente, <a href="https://www.agoraeca.com.br/2021/07/02/professores-cassados-jair-borin/">Jair Borin</a>, que foi preso nas dependências da ECA, numa gritante violação da inviolabilidade do território universitário.</p>
<p>A virada se deu com a nomeação de Manuel Nunes Dias para a direção da escola, em outubro de 1972. Não o chamarei de professor, porque esse senhor se comportou como um agente policial-militar. Não tenho provas para afirmar, mas tudo leva a crer que Nunes Dias mandou “levantar a ficha” dos membros do corpo docente, com a intenção de promover uma limpeza ideológica na escola. Se assim procedeu, não foi por conta própria, mas a serviço do regime. Ele, aliás, se jactava de ter excelentes relações com os “órgãos de segurança” (sistema repressivo da ditadura). Disso dou meu testemunho por tê-lo ouvido, mais de uma vez, gabar-se de seus contatos para intimidar professores e alunos. Assim, não é de admirar que tenha tolerado, ou mesmo tenha sido conivente, com a invasão da escola pelos agentes policiais que tiraram <a href="https://www.agoraeca.com.br/2021/07/02/professores-cassados-jair-borin/">Jair Borin</a> da ECA para o cárcere.</p>
<p>Após o afastamento dos professores mencionados, chegou a minha vez. Eu ocupava o cargo de vice-coordenador do CJE. Fui demitido após ser reprovado no exame de qualificação para o mestrado, por uma banca facciosa, integrada por Modesto Farina, Helda Barracco e Teobaldo Andrade. Submeti-me ao julgamento deles sem imaginar que se curvariam às pressões de Nunes Dias. O processo de homologação do resultado do exame se arrastou do final de dezembro de 1974 a março de 1975, quando a Comissão de Pós-Graduação, após muita discussão interna, entendeu como válida a decisão da banca. Mas não houve unanimidade entre os membros da comissão. Além da representante discente, Jeanne Marie Interlandi, os professores Eduardo Peñuela e Frederic Litto votaram pela anulação do resultado e realização de um novo exame. Deixo aqui meu reconhecimento pela coragem e independência por eles demonstrada.</p>
<div id="attachment_21301" style="width: 348px" class="wp-caption alignleft"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-21301" class="wp-image-21301 size-full" title="Sinval Medina" src="https://www.agoraeca.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Sinval-Medina-agora-ECA-atual.jpg" alt="Sinval Medina" width="338" height="600" srcset="https://www.agoraeca.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Sinval-Medina-agora-ECA-atual.jpg 338w, https://www.agoraeca.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Sinval-Medina-agora-ECA-atual-169x300.jpg 169w" sizes="(max-width: 338px) 100vw, 338px" /><p id="caption-attachment-21301" class="wp-caption-text">Sinval Medina, hoje com 78 anos, dedica-se exclusivamente à literatura</p></div>
<p>Três colegas se demitiram em sinal protesto: Walter Sampaio, Paulo Roberto Leandro e Cremilda Medina. O CJE ficava, assim, praticamente sem condições de funcionamento. O caso fora acompanhado pelos alunos desde o início. Quando chegou ao desfecho, os estudantes do CJE deixaram de comparecer às aulas, permanecendo mobilizados na escola. A paralisação se espalhou pela ECA. Os alunos entendiam que Manuel Nunes Dias, autor de tantas arbitrariedades, não podia continuar na direção da ECA. Como um rastilho de pólvora, a greve atingiu outras unidades da USP.</p>
<p>Com a carreira acadêmica interrompida e ameaçado de prisão, retirei-me de cena e tratei de buscar emprego. Com o auxílio de amigos, em menos de duas semanas estava trabalhando na Rádio Difusora de São Paulo, na Assessoria de Imprensa da Prefeitura, de onde saí em um mês para a Editora Abril. Assim, voltei ao jornalismo, à editoração e à literatura. Mas o afastamento da ECA continuava atravessado na minha garganta. A reprovação no exame de qualificação era uma pedra no meu caminho, ainda que, a essa altura, já tivesse enveredado pela literatura e publicado três romances (<em>Liberdade Condicional</em>; <em>Cara, Coroa, Coragem</em>; e <em>Memorial de Santa Cruz</em>), com boa repercussão de público e crítica. A carreira acadêmica ficara no passado.</p>
<p>Com a queda da ditadura, mais uma vez pela mão do professor <a href="https://www.agoraeca.com.br/2021/06/04/professores-cassados-jose-marques-de-melo/">José Marques de Melo</a> (que infelizmente já nos deixou), tive a chance de remover a “pedra do caminho”. No dia 5 de novembro de 1986 fui reintegrado à USP, com base na Emenda Constitucional 26, de 27/11/1985, que trata da anistia para perseguidos políticos. Coube a José Marques o encaminhamento da minha pretensão, sancionada pelo então reitor, professor José Goldenberg.</p>
<p>A essa altura, minha vida profissional me afastara por completo da universidade. Assim, trabalhei durante um semestre no CJE e em junho de 1987 pedi demissão, deixando a Universidade de São Paulo pela porta da frente. Não esqueço, porém, a importância que a ECA teve na minha formação. Fui aluno de mestres como Egon Shaden, Paulo Emílio Sales Gomes, Eduardo Peñuela, Décio de Almeida Prado, Sábato Magaldi, Virgílio Noya Pinto e do próprio José Marques de Melo. Além disso, no convívio acadêmico, fiz amizades que perduram até hoje.</p>
<blockquote><p>Lembro com saudade desse tempo, mas também com preocupação. É impossível esquecer o que a minha geração sofreu nos anos de chumbo. Manter viva a memória do medo, da frustração e das humilhações por que passamos é a melhor maneira de evitar que a ditadura venha, um dia, a se repetir em nosso país.</p></blockquote>
<h5>Fotos:</h5>
<p>Arquivo pessoal Sinval Medina</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="https://sites.usp.br/comissaodaverdade/wp-content/uploads/sites/59/2015/07/Sinval-Freitas-Medina.pdf">Ficha de Sinval Medina na Comissão da Verdade USP</a></p>
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