Por que encenar Shakespeare hoje?

Cena de "O Mercador de Veneza", com Dan Stulbach e grande elenco (foto: Igor Dallegrave)
Cena de "O Mercador de Veneza", com Dan Stulbach e grande elenco (foto: Igor Dallegrave)

Lidar com os desafios shakesperianos é abrir espaço para o risco, para a escuta do tempo presente, para o confronto com o que somos – e com o que podemos ser. É expandir o entendimento sobre a vida: as relações humanas em sua complexidade e contradições. Tudo está ali. Vilões e heróis se confundem nas máscaras sociais. Shakespeare permanece vivo pela teatralidade vibrante que suas obras oferecem. Assim, mergulhei no mar e na ventania de O Mercador de Veneza.

Estar à frente da direção me possibilitou criar um universo contemporâneo. A história, escrita no contexto do capitalismo emergente do século XVI, foi transportada para os anos 1990 – década marcada pela aceleração da globalização e pelo surgimento de uma nova ordem mundial. Estabelecemos a Bolsa de Valores como espaço central, implantando a atmosfera das negociações financeiras do tempo presente e o dinheiro como motor principal das relações.

Durante os ensaios, os paralelos com a proposta foram se delineando, e diversas ideias surgiram ao longo do processo de investigação cênica. Nos deparamos com a fronteira entre dois mundos – Veneza e Belmonte – e ampliamos esse olhar para outras dualidades: ator e personagem, masculino e feminino, bem e mal, judeu e cristão, capitalismo e mercantilismo, tradição e modernidade, analógico e digital.

Convido o público a atravessar essas fronteiras, mergulhando no jogo de espelhos onde nada é exatamente o que parece. A obra, atravessada por tensões religiosas e preconceitos, nos confronta com questões sobre intolerância, identidade e justiça – tão atuais quanto no tempo em que foi escrita: “O mundo muito engana na aparência.”

Que cada cena instigue emoções, que cada escolha desperte reflexões, que cada fala inspire diálogos, e que o teatro potencialize o olhar às sutilezas (por vezes veladas) do mundo. É na diferença que floresce o que temos de mais humano.

Daniela Stirbulov

Daniela Stirbulov

Daniela Stirbulov, diretora da peça “O Mercador de Veneza”, é formada em Artes Cênicas pela ECA (turma 2006), com habilitação em Direção Teatral.

Sucesso de público e crítica, a peça estreou em 2025, já passou por diversas cidades e segue em cartaz em São Paulo em 2026, até maio no Tucarena e até julho no Tuca.

Além de Daniela, outros ecanos também participam da peça: no elenco, Dan Stulbach (EAD turma 41 -1989) e Thiago Sak (EAD turma 70 – 2018). Vídeo e Imagens: André Voulgaris (Audiovisual 2016).

O Mercador de Veneza: cartaz

Texto: William Shakespeare
Direção: Daniela Stirbulov
Tradução, adaptação e assistência de direção: Bruno Cavalcanti
Elenco: Dan Stulbach (Shylock), Augusto Pompeo (Duque), Amaurih Oliveira (Lorenzo e Príncipe de Marrocos), Cesar Baccan (Antônio), Gabriela Westphal (Pórcia), Júnior Cabral (Graciano), Marcelo Diaz (Lancelotte Gobbo), Marcelo Ullmann (Bassânio), Marisol Marcondes (Jéssica), Rebeca Oliveira (Nerissa), Renato Caldas (Solânio e Tubal) e Thiago Sak (Salarino e Príncipe de Aragão)
Cenografia: Carmem Guerra
Desenho de Luz: Wagner Pinto e Gabriel Greghi
Figurino e Visagismo: Allan Ferc
Baterista: Caroline Calê
Vídeo e Imagem: André Voulgaris
Operação de Luz: Jorge Leal
Operação de Som: Eder Sousa
Assistente de Produção: Amanda Nolleto
Produção Executiva: Raquel Murano
Direção de Produção: Cesar Baccan e Marcelo Ullmann

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