Francisco Alves

Francisco Alves em 1973, ano em que entrou na ECA (foto restaurada com ferramentas de IA)
Francisco Alves em 1973, ano em que entrou na ECA (foto restaurada com IA)

A ECA foi uma boa escola para mim. Em todos os sentidos.

Ingressei na ECA em 1973. Na época, o aluno ingressante escolhia entre as áreas de Comunicações (que incluíam Jornalismo, Relações Públicas, Editoração, Biblioteconomia, Rádio e TV) e Artes (Artes Plásticas, Música e Teatro). Naquela época, a ECA só oferecia cursos diurnos, o que dificultava o ingresso de alunos que já tinham que trabalhar para sobreviver, que era o meu caso. Eu tinha um emprego na então companhia aérea Varig, onde trabalhava das 8 da manhã às 5 da tarde e o curso de Comunicações só era oferecido de manhã. Eu não podia renunciar à vaga, porque havia sido o único aluno de uma turma do cursinho Equipe a ser aprovado no vestibular. E desde aquela época era muito difícil ingressar na ECA. Tive que pedir demissão do emprego, vivendo os primeiros meses com o dinheiro que havia recebido do FGTS. Por sorte, eu podia fazer as refeições no restaurante do CRUSP, que então nada cobrava, desde que o aluno tivesse carteirinha. Quanto à moradia, eu vivia em uma república, o que amenizava o preço do aluguel.

Todos os alunos da ECA frequentavam o curso básico, de dois anos, e depois escolhiam em que gostariam de se formar. Inicialmente escolhi Rádio e TV, mas depois de um semestre tive um entrevero com uma das professoras que lecionava História do Rádio, o que me desgostou. Eu gostava muito do curso de Rádio e TV, chegamos a fazer algumas produções em laboratório, mas como a profissão não era regulamentada, resolvi me direcionar para o Jornalismo. Uma pena, pois logo depois alguns colegas de turma foram convidados para um estágio na TV Cultura (Bia Rosemberg, Bete Carmona, Gabriel Priolli, dentre outros), por Júlio Lerner e fizeram carreira, permanecendo na emissora por muitos anos.

Naquela época, o ambiente político no Brasil era muito tenso, pois vivia-se no ápice da ditadura militar de 1964, que havia atingido o auge da repressão após o Ato Institucional número 5 (o famigerado AI-5), de 1968. A USP havia perdido muitos professores, perseguidos pela ditadura e que foram presos ou decidiram se exilar no exterior, principalmente no Chile e depois em outros países, depois que houve o golpe militar de Pinochet.

Naquele ano, 1973, a perseguição política no âmbito da USP era muito forte e um episódio marcante foi a prisão do estudante de Geologia Alexandre Vannucchi Leme, que acabou falecendo devido a torturas nas dependências do DOI-CODI, embora a polícia política tenha “fabricado” a versão, divulgada pela imprensa, de que ele havia sido atropelado por um caminhão, ao tentar escapar da polícia. A farsa foi denunciada pela família, mas a imprensa, sob censura, não pôde publicar. Mesmo assim, o cardeal arcebispo de São Paulo decidiu realizar uma missa de sétimo dia na Catedral da Sé, onde denunciou publicamente a versão pública do atropelamento. A missa ficou marcada como a primeira grande manifestação pública contra a ditadura e denúncia da tortura no governo Médici, que era tido como o mais truculento durante o período da ditadura. Boa parte dos alunos da ECA, assim como de outras unidades da USP, foi à missa. Na época, havia muita integração entre os alunos da ECA e da Geologia, que costumavam fazer festas animadas, regadas a muito chope (a bebida alcoólica ainda não era proibida no campus). Outros alunos da Geologia também foram presos, acusados de pertencer a organizações políticas clandestinas, como a ALN (Ação Libertadora Nacional), liderada por Carlos Marighela, que foi assassinado pela polícia política.

Francisco Alves em 1977, quando era aluno da ECA (foto restaurada com IA)
Francisco Alves em 1977, quando era aluno da ECA (foto restaurada com IA)

O clima na ECA também era “pesado”. Lembro que havia um professor de Teoria da Comunicação, no curso básico, de sobrenome Vilches. Creio que o primeiro nome era Cláudio. Ele era chileno, fiel adepto e defensor de Pinochet e reprovava qualquer trabalho que tivesse algum cunho ideológico de defesa da democracia ou críticas à ditadura. Nosso grupo, por sugestão do colega Fred Ghedini (que posteriormente chegou a presidir o Sindicato dos Jornalistas), sugeriu que fizéssemos nosso trabalho da disciplina do professor Vilches baseado na teoria de Paulo Freire, o educador brasileiro que ficou mundialmente conhecido por pregar o seu método de educação democrática, dialógica e participativa, tendo sido, por isso, perseguido no Brasil e exilado. Fred Guedhini participava de um curso de alfabetização para adultos, em uma comunidade do Butantã, juntamente com o músico Luiz Tatit. Fizemos, como trabalho de apresentação à disciplina da Teoria da Comunicação, um audiovisual sobre o Método Paulo Freire que terminava com um som de desfile militar e imagem apenas das botas dos soldados no desfile. Quando terminou a exibição, o professor Vilches ficou possesso e, evidentemente, nos reprovou no trabalho. Eram tempos obscuros.

Eu e Fred Ghedini tivemos problemas também em uma outra matéria, ESPB (Estudos Sociais e Problemas Brasileiros) que havia sido instituída por um decreto do governo militar, ministrada por um professor da família Reale, cujo nome não me lembro. Ele era também um conservador ferrenho. Em um dos trabalhos para a disciplina, eu e Fred usamos como bibliografia um livro de Luís Carlos Bresser Pereira, que era considerado pelo professor como um esquerdista. Também fomos reprovados, o que questionamos, pois sabíamos que tínhamos feito um bom trabalho. Pedimos ao professor que nos explicasse a razão da baixa nota e ele nos disse que “não tinha qualidade”. Mas nós sabíamos que tinha. O professor se recusou a mudar a nota, então recorremos ao Conselho da Escola, que tinha um bom representante dos alunos, creio que Rodrigo Naves (que se tornou depois um famoso crítico de arte). O Conselho decidiu que o professor aplicasse outra prova somente a nós, o que ele fez de muito má vontade, evidentemente. Caprichamos, mas ele nos deu apenas um cinco, que era a nota mínima para aprovação.

Mas nem só de professores direitistas ou conservadores vivia a ECA. Havia também docentes como Virgílio Noya Pinto, que ministrava História da Comunicação e dava muita liberdade de criação. Nosso grupo, por exemplo, resolveu fazer uma radionovela do romance “Madame Bovary”, do francês Gustave Flaubert, e ele aplaudiu. Outro grupo fez um audiovisual com a peça Prometeu Acorrentado, da qual ele também gostou, embora tenha criticado a leitura totalmente psicodélica. Quem dirigiu o audiovisual foi Walcyr Carrasco (que fez, e ainda faz, muito sucesso como autor de telenovelas), e lembro que a sessão de fotos trouxe uma grande dificuldade, porque tinha que ser feita à luz do dia, com atores nus e o local mais apropriado era o anfiteatro de arena, que ficava próximo ao antigo prédio da Filosofia. Quem fez o papel de Prometeu foi Renato Lemos, que era aluno do curso de Música e muito cobiçado pelas mulheres, por seus olhos esverdeados à la Chico Buarque. Eu fiz o papel de Zeus (usava barba e tinha cabelos compridos). Quando as meninas ficaram sabendo da sessão de fotos, foram se esconder por trás do muro do teatro, para ver a nudez de Renato. Mas ele posou para a foto de lado e as meninas, assim como as funcionárias da Filosofia que estavam “brechando” pelas janelas do prédio, não conseguiram ver muita coisa. Mesmo assim gostaram do que viram, pois aplaudiram. Ao descobrir que tinha sido visto “pelado” pelas meninas, Renato ficou meio envergonhado, mas também lisonjeado, por ver o interesse de tantas mulheres em sua beleza. Pra mim ninguém deu bola, mesmo porque nunca fui bonito e só topei fazer a foto de cueca.

Cena de "Prometeu Acorrentado", trabalho realizado para a disciplina História da Comunicação, do professor Virgílio Noya Pinto
Francisco em cena de "Prometeu Acorrentado", trabalho para a disciplina História da Comunicação, do professor Virgílio Noya Pinto

A primeira greve estudantil pós-1968

O diretor da ECA na época era um português salazarista confesso, Manuel Nunes Dias, que perseguia ou demitia qualquer professor que tivesse alguma atitude mais democrática. Em março de 1975, ele aplicou uma punição ao professor Sinval Medina (que depois fundou a revista Imprensa), promovendo a reprovação do seu exame e impedindo que ele exercesse a docência na ECA. O diretor também impediu a realização de uma feira de livros e mandava retirar cartazes do movimento estudantil dos murais da escola.

Em solidariedade ao professor e motivados pelo clima repressivo na escola, no início de abril os alunos deflagraram a primeira greve estudantil no Brasil após 1968. Como punição, a diretoria determinou a destituição da diretoria do Centro Acadêmico, numa tentativa de acabar com a greve. Mas o que aconteceu foi que a greve obteve apoio em diversas unidades da USP (até os alunos da Poli, normalmente bastante conservadores, apoiaram). Houve apoio também de universidades de fora, como a UFPR, a PUC São Paulo e até das Faculdades Anhembi. Apesar de haver forte vigilância da repressão política na USP (havia muitos agentes infiltrados, disfarçados e matriculados como alunos, chamados pelos alunos de “ratos” e que não faltavam a qualquer reunião, para anotar nomes, principalmente das lideranças), a greve ganhou corpo e culminou com uma assembleia no dia 8 de maio, reunindo mais de mil estudantes. E foi aceso o estopim para a recriação do Diretório Central dos Estudantes (DCE), que havia sido tornado clandestino em 1969.

Como forma de angariar fundos para a sustentação da greve, uma comissão de alunos, da qual eu fazia parte, resolveu realizar um show na Poli, que tinha um auditório grande. Mas o uso o auditório não foi permitido pela direção da Poli e tivemos que organizar o show em um outro espaço, no primeiro andar, aberto, o que dificultava a cobrança de ingressos. Para fazer o show, convidamos o músico cearense Ednardo, que estava fazendo sucesso, junto com músicos como Belchior e outros do grupo Pessoal do Ceará (Rodger Rogério, Teti, Cirino…). Adiantamos para Ednardo que não tínhamos dinheiro para cachê e que a arrecadação seria para apoiar a greve. Ele topou, pedindo que pagássemos apenas os músicos com uma parte da arrecadação. O show foi um sucesso e nos deu algum dinheiro para bancar a impressão de panfletos e compra de outros materiais.

Conseguimos manter a greve por 73 dias. Foi um período de muita agitação, com reuniões ou miniassembleias quase diárias na frente do prédio da ECA. Com a diretoria do Centro Acadêmico destituída, um grupo de alunos ativistas, ligados à tendência Liberdade e Luta, assumiu o controle da entidade e as dependências físicas onde ficava o CA Lupe Cotrim (nome oficial do Centro Acadêmico), apesar dos protestos de antigos membros da diretoria.

Porém, os objetivos da greve, que eram principalmente a destituição do diretor, não foram atingidos. Ele permaneceu no cargo até o seu mandato. E nós, alunos, tivemos que amargar um semestre de perda do ano letivo. Eu deveria ter me formado em 1977, mas só obtive meu diploma de Bacharel em Comunicações com especialização em Jornalismo em meados de 1978. Mas a semente germinou e em 1976 o DCE da USP foi recriado, detonando um processo de reorganização do movimento estudantil em todo o Brasil.

No segundo semestre de 1975, mais precisamente no mês de outubro, outro episódio “balançou a ECA”. O jornalista Vladimir Herzog, que além de lecionar na ECA era diretor de jornalismo da TV Cultura, foi denunciado por um “jornalista” do jornal Shopping News, que era um adepto ferrenho da ditadura. O “jornalista”, de nome Cláudio Marques, fez uma denúncia aberta, acusando Herzog de estar transformando a TV Cultura em uma célula do Partido Comunista. O professor apresentou-se espontaneamente ao DOI-CODI para prestar esclarecimentos, mas foi preso, torturado e morreu no mesmo dia. No dia seguinte, os militares montaram uma nova farsa, desta vez diferente da que haviam montado para Alexandre Vannucchi Leme e publicaram a foto do corpo de Herzog pendurado na grade da prisão, com um cinto no pescoço, afirmando que ele havia se enforcado. O enterro de Herzog, apesar de resistências por parte da comunidade judaica, foi feito no Cemitério Israelita do Butantã e acompanhado por algumas centenas de estudantes, muitos da ECA, que acompanharam o cortejo a pé, apesar da distância, de alguns quilômetros. O cortejo, acompanhado de perto pela polícia, parou a rodovia Raposo Tavares naquela manhã.

Não acreditando na farsa montada pelos militares, a opinião pública se mobilizou. Novamente o cardeal arcebispo dom Paulo Evaristo Arns decidiu realizar um culto ecumênico na Catedral da Sé, juntamente com o rabino Henry Sobel e o pastor James Wright. Uma grande multidão lotou a igreja e a praça da Sé, vigiada por um enorme contingente militar, que tomou conta dos arredores da catedral. A manifestação pública de grandes proporções, embora de cunho religioso, marcou o início do movimento que balançaria o regime militar – o então presidente Geisel teve que demitir o comandante do II Exército, em São Paulo, que apoiava as operações do DOI-CODI. Pode-se dizer que esse ato foi o estopim do movimento Diretas Já. Após o ato da Sé sucederam-se várias passeatas, em que estudantes da ECA estavam na linha de frente.

Aliás, o ano de 1976 foi muito ativo na ECA, porque o pessoal que assumiu o Centro Acadêmico – dentre os quais se destacavam Mário Sérgio Conti, Rodrigo Naves e Roberto Melo (que não sei por qual razão era apelidado de “Bebê Diabo”) – era muito ativo e promovia diversas atividades culturais: shows musicais, apresentação de filmes, palestras com convidados ilustres e conversas com cineastas, principalmente diretores dos filmes produzidos na Boca do Lixo, como Rogério Sganzerla, Ozualdo Candeias e Carlos Reichenbach. Alunos de várias unidades da USP compareciam a essas atividades. A ECA, naquele período, era uma espécie de “caldeirão cultural”. Não sei como é hoje, mas havia muita integração entre os alunos dos vários cursos, principalmente Jornalismo, Cinema, Música e Teatro.

A atividade teatral também era muito intensa. Destacamos a apresentação de duas peças: “Liberdade, Liberdade”, de Millôr Fernandes, e uma colagem de vários textos, denominada “Vestido de Noiva, Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá”, com textos que iam desde Abílio Pereira de Almeida, passando por Nelson Rodrigues, Gianfrancesco Guarnieri e Dias Gomes. Nesta, participei como ator em alguns papéis, com destaque para o Zé do Burro, da peça “O Pagador de Promessas”, de Dias Gomes. Com meus colegas Renato Lemos e Sergio de Oliveira, fizemos duas canções para a peça, uma das quais denominada Cena Final, que ganhou um festival de música na cidade de Campinas, do qual também participou Itamar Assumpção, com a música “Luzia”, que ficou em segundo lugar e em minha opinião deveria ter ganhado.

Depois, ao longo dos anos, continuei fazendo parceria musical com Renato Lemos e compusemos várias canções, gravadas em disco, mas que não fizeram sucesso. Também participamos com uma música no Festival Universitário da TV Cultura, em que o grande ganhador foi Arrigo Barnabé, que foi contemporâneo nosso na ECA, com a música “Diversões Eletrônicas”. A nossa, denominada “Glória (Maninha)”, ficou em quarto lugar. Renato Lemos e eu continuamos grandes amigos até hoje. Na peça “Vestido de Noiva…” também protagonizei a foto do cartaz que era grudado nos pontos de ônibus da USP. Ficou uma foto meio esquisita, pois eu aparecia com meu cabelo comprido e barba, vestido de noiva, no alto de uma escada. Ainda bem que nenhum de meus parentes viu essa foto, porque certamente iria ferir o conservadorismo cearense.

Fizemos também outra peça, com textos de Bertold Brecht, na qual também atuei e para a qual também compusemos duas músicas (eu e Sérgio de Oliveira). Essa peça foi apresentada no Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação de 1974, realizado em Fortaleza e lembro que na época tivemos dificuldade para aprovar o espetáculo na censura. É que, então, qualquer peça de teatro, assim como músicas que eram gravadas, tinham que ser enviadas previamente para a censura, para que os senhores censores verificassem se nada havia que pudesse atentar contra “a moral e os bons costumes”, ou melhor, se não continham críticas contra a ditadura. O chefe da censura no Ceará, evidentemente, não tinha a menor ideia de quem tinha sido Bertold Brecht. Tanto, que, no ensaio prévio, exclusivo para a censura, ele perguntou se Brecht estava presente. Evidentemente ele não entendeu nada das críticas que os textos de Brecht continham contra o regime nazista e liberou a peça, recomendando que não deveríamos fazer a apresentação, porque em sua opinião o espetáculo era “muito ruim”. Não foi a opinião das centenas de estudantes que assistiram à peça, apresentada na Faculdade de Direito da UFC, e aplaudiram com entusiasmo. Um dos atores de destaque dessa peça foi Caio Túlio Costa, que depois fez uma brilhante carreira no jornalismo, primeiramente como editor do jornal “Leia Livros”, que era publicado pela Editora Brasiliense, e depois na Folha de S. Paulo, onde se tornou Secretário de Redação, e no UOL, cuja criação ele comandou.

Silvia Poggetti, Tonho Penhasco, Marilda de Oliveira, Helo e Francisco Alves, em peça apresentada no Enecom de 1974, em Fortaleza, com textos de Bertold Brecht
Silvia Poggetti, Tonho Penhasco, Marilda de Oliveira, Helo e Francisco Alves, em peça apresentada no Enecom de 1974, em Fortaleza, com textos de Bertold Brecht

Um novo jornal, feito com jornais velhos

Mas talvez a nossa grande atuação na ECA tenha sido a criação do jornal Dois Pontos. Como a escola não tinha jornal laboratório, não havia muito como praticar jornalismo e decidimos, um grupo de alunos, criar o nosso próprio jornal. Com a venda de jornais velhos acumulados durante meses em nossa república e mais uma “ação entre amigos”, juntamos o dinheiro necessário para pagar metade do custo de impressão do jornal, com uma tiragem de 5 mil exemplares, que eram vendidos de mão em mão e em algumas bancas da Cidade Universitária.

O primeiro número vendeu o suficiente para pagarmos a gráfica. Mas em seguida fizemos uma edição com uma matéria com o título “Sexo na USP”, com entrevistas das estudantes da Psicologia, que eram liberais, e alunos da Poli, bastante conservadores, que admitiam sexo antes do casamento, desde que não fossem com suas namoradas. A ilustração da capa era um desenho do livro “Kama Sutra”. A edição foi um sucesso e a tiragem se esgotou rapidamente. Tivemos que fazer uma reimpressão. Mas a matéria nos “desgraçou”: o mesmo “jornalista” Cláudio Marques, que havia denunciado Herzog, escreveu uma matéria no jornal afirmando que o jornal estudantil Dois Pontos havia publicado uma matéria digna dos “pornoshops” de Amsterdã. E perguntava o que andava fazendo o secretário de Segurança Erasmo Dias, que não via o que estava acontecendo na USP, que se tornara um antro de subversão política e agora moral. A denúncia chamou a atenção da polícia política sobre nós. Esse “jornalista”, felizmente, foi expulso do Sindicato dos Jornalistas, por decisão de uma assembleia que lotou as dependências do Sindicato na rua Rego Freitas.

jornal Dois Pontos

A coisa se complicou no número seguinte do jornal, quando publicamos uma matéria sobre “Roças Comunitárias”, que foi ilustrada com uma xilogravura feita pelos presos políticos do presídio do Barro Branco, em São Paulo. O resultado foi que os estudantes que faziam o jornal começaram a ser chamados para depor no DOPS. Integravam a redação do jornal algumas “moças de família” como Sílvia Poppovic, cujo pai era diretor da Editora Abril, Maria Teresa Pinheiro (que fez carreira na rede Globo) e outras. Elas foram escolhidas para iniciarem os depoimentos, o que foi favorável para nós, porque contrariaram as expectativas dos agentes do DOPS, que, acredito, esperavam ver alguns barbudos com cara de terrorista. A grande preocupação do DOPS era saber que organização terrorista estava apoiando o jornal. Acho que se convenceram que não havia nenhuma, o que era verdade. Assim, depois do depoimento elas foram dispensadas, com o conselho de parar com o jornal. Mas eu, que fui depor alguns dias após o depoimento das moças, não tive a mesma sorte e acabei levando alguns sopapos do delegado que me interrogou. Felizmente, não fui preso.

A perseguição da polícia política acabou gerando uma divisão entre os alunos que faziam o jornal e o Dois Pontos acabou. Um grupo remanescente decidiu fazer um outro jornal, de nome Avesso, que tinha caráter mais cultural. Porém, o Avesso também não teve vida longa.

Com a minha formatura, em 1978, deixei de frequentar a ECA e fui cuidar da vida, pois tinha uma família para sustentar. Mas continuei participando ativamente de atividades políticas, no Sindicato dos Jornalistas, no movimento Diretas Já, na luta pela Anistia e depois na fundação do Partido dos Trabalhadores.

Francisco Alves
Francisco Alves

A ECA foi uma boa escola para mim.

Em todos os sentidos.

Aluno Turma Curso
Francisco Alves 1973 Jornalismo
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