
“O álbum dos álbuns de figurinhas das Copas”, de Marcelo Duarte (Jornalismo 1982), conta os mais de 90 anos de uma apaixonante tradição cultural.
— Tá bom, eu troco. Mas quero cinquenta por essa!
— Cinquenta? Tá doido?
— Você que sabe. Essa aqui só eu tenho.
Talvez o diálogo e a quantidade não sejam exatamente esses, mas certamente o espírito não foge muito de algo parecido. Quem coleciona figurinhas sabe bem as artimanhas utilizadas quando se deseja obter aquela que falta para completar a página. Vale trocar, bater bafo, comprar, implorar, até porque não há nada mais prazeroso que preencher um álbum, mostrar para os amigos, guardar como recordação.
Figurinhas fazem parte da nossa cultura. É uma tradição apaixonante, que se mantém ativa até hoje, encantando um público heterogêneo. Crianças, jovens, adultos e os mais velhos consomem-nas em larga escala. Mesmo em face ao mundo conectado, que nos mantém distantes, dando a impressão de que nunca estivemos tão próximos, os colecionadores sabem como ninguém romper essa barreira. Usam os meios digitais para realizar seu sonho de papel e cola, marcando encontros presenciais para trocar as repetidas, conversar e alcançar seus nobres objetivos.
Aliás, “trocar figurinhas” virou expressão coloquial, “figurinha difícil” e “figurinha carimbada” também, como nos lembra uma das figuras mais expressivas do jornalismo esportivo e do mundo das curiosidades, Marcelo Duarte, que lançou pela Panda Books, de sua propriedade, o delicioso “O álbum dos álbuns de figurinhas das Copas”.
Mergulho nos mais de 90 anos dessa tradição, o livro resgata desde as primeiras figurinhas datadas de 1934, iniciativa das Balas Vênus, passando por álbuns que marcaram época, entre os do México 70 – o primeiro que autor colecionou e o guarda com carinho –, o famosíssimo Ping Pong Espanha 82 e o icônico Fifa World Cup Brasil 2014 – uma febre que levou este escriba praticamente à falência ao tentar preenchê-lo.
Repleto de informações e registros visuais, “O álbum dos álbuns de figurinhas das Copas” aborda vários aspectos relativos a esse universo encantador. Um deles é a questão dos álbuns oficiais e dos piratas. Enquanto reconhecidas editoras se desdobram para pagar direitos de imagem, há o lado daquelas que passam por cima dessa obrigatoriedade; concorrência desleal, que muito prejudica quem trabalha a sério.
Mais do que imprimir os rostos de Leônidas, Pelé, Rivellino, Zico, Ronaldo e um infindável time de craques nacionais e internacionais, além de símbolos, pacotinhos e mascotes, o livro serve como um retrato da trajetória do setor gráfico. Várias empresas de renome, que durante décadas dedicaram-se à tarefa de ilustrar as histórias das Copas, infelizmente fecharam as portas. Foram extremamente importantes, algumas pioneiras. De qualquer forma, deixaram uma vasta memorabilia, bem como construíram um segmento rentável, atualmente liderado pela italiana Panini, que lançou o seu primeiro volume no Brasil em 1990.
Outro golaço da obra assinada por Marcelo Duarte reside nas reproduções de verdadeiras raridades: páginas, muitas vezes incompletas, de álbuns antigos, mostrando como sempre foi difícil e, por isso mesmo desafiador, ocupar a totalidade dos espaços disponíveis. Um alívio para colecionadores que se reconhecem nessa situação, mas não desistem desse delicioso passatempo.
“O álbum dos álbuns de figurinhas das Copas” chama a atenção do leitor quanto ao marketing adotado por marcas de peso. Postos Atlantic, Chocolates Garoto, Sucrilhos Kellogg’s, Caixa Econômica Federal, entre outras tantas, pegaram carona na febre dos álbuns, produzindo suas próprias coletâneas. Uma forma de atrair o consumidor, que fez o sucesso, por exemplo, das Balas Futebol. Dizem que as guloseimas eram tão ruins que as pessoas as compravam para ficar com as figurinhas, dispensando as balas no lixo mais próximo.
Fruto de uma profunda arqueologia editorial, extensa pesquisa e horas de conversas com especialistas, o estudo reacende uma polêmica antiga, tradicionalmente presente nas provocações entre torcedores. O Álbum Balas Cebedê, de 1952, “apresenta o Palmeiras como campeão mundial de 1951”. Mais uma prova irrefutável da conquista do Verdão a ser comemorada por muitos e deixar outros tantos em estado de negação. Um dos fatos, que somados a outros tantos apresentados em 150 luxuosas páginas, faz desse um documento indispensável.
Fernando Brengel

Sobre o autor
Formado em Jornalismo pela ECA, turma de 1982, Marcelo Duarte tem uma extensa e vitoriosa carreira. Com passagens pelas revistas Placar, Playboy e Veja São Paulo, ocupou os microfones da Rádio Bandeirantes e, na telinha, apresentou programas como o Loucos por Futebol.
Colecionador de prêmios profissionais e de toda a sorte de artigos possíveis de serem coletados, divide com o público suas paixões.
Criador do sucesso editorial “Guia dos Curiosos”, escritor com vários livros publicados e diretor da Panda Books, ocupa a cadeira 24 da Academia Brasileira de Letras do Futebol, além de ser membro da Academia Paulista de Jornalismo.

Serviço
“O álbum dos álbuns de figurinhas das Copas”, Marcelo Duarte. Panda Books, 2026, 152 páginas. À venda na Livraria da Vila, Livraria Travessa, Amazon e pelo site da editora: www.pandabooks.com.br. Disponível também em formato digital.

Fernando Brengel é publicitário formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP — ele entrou na turma 1982, mas acabou fazendo o curso de Publicidade e Propaganda com a turma de 1983. Palmeirense, é diretor de criação da agência Presença Propaganda e diretor da Empório Barilotto Bebidas & Sabores.


