A luta entre o bem e o mal ganha um aliado de peso

“Ecos de Badajoz, uma fábula de nosso tempo”, novo livro de João Batista de Andrade
“Ecos de Badajoz, uma fábula de nosso tempo”, novo livro de João Batista de Andrade
“Ecos de Badajoz, uma fábula de nosso tempo”, de João Batista de Andrade, revela as contradições humanas, levando-nos a pensar na realidade em que estamos inseridos, bem como em nossas próprias atitudes.

A luta do bem contra o mal mexe com as nossas certezas, fazendo-nos refletir a respeito do lado da moeda que melhor nos representa. Ao mesmo tempo, abre espaço para considerações morais, éticas, comportamentais, entre outras tantas. Um jogo revelador das contradições humanas, das permissividades, muitas vezes justificadas em função da realidade em que estamos inseridos, ou da necessidade de autopreservação, capaz de alterar nossas atitudes. Embate que nos coloca à prova, principalmente no momento em que as nossas fragilidades falam mais alto.

O tema, presente nas várias formas de expressão intelectual e artística – destaque para os cordéis, que o exploram de maneira magnífica – ganha um aliado de peso. “Ecos de Badajoz, uma fábula de nosso tempo”, de João Batista de Andrade, é uma viagem ao universo dos valores antagônicos de suas personagens – e por que não, de nós mesmos? – revelando que a sordidez de alguns deles não logra êxito pois é barrada pela força de caráter daqueles que não se rendem ao fácil, ao vil, ao desonesto. Qualquer semelhança com a realidade, portanto, não é fruto do acaso, mas sim um recado direto do autor: o mal não passará!

Cineasta e escritor dos mais notáveis, em “Ecos de Badajoz” João Batista de Andrade apresenta-nos Poliana. Nascida em Docelândia, filha dos donos de uma fábrica de guloseimas, a jovem podia consumir quantas iguarias quisesse pois quanto mais comia mais emagrecia. A notícia chamou a atenção de Benkisto, que a seduziu e casou-se com ela. O rapaz tinha tudo para se consolidar como herói: evitou uma tragédia em sua comunidade, quando brecou um elefante enfurecido que a invadiu e poderia ter arrasado o que estivesse à frente. No entanto, cego pela ganância abraçou um caminho tortuoso, repleto de perversidade e mentira, para o qual arrastou Poliana, transformando-a em trampolim para alcançar o poder. Afinal, como diz, “O importante na vida é ganhar!” seja lá de que forma.

Atentos aos acontecimentos, os frequentadores do Bar do Peixe Vivo passam a tecer considerações a respeito dos fatos que se sucedem. Seu dono, o espanhol Buenura, testemunha dos horrores da Guerra Civil Espanhola responsável por dizimar a sua cidade natal, Badajoz, é discreto, porém firme na defesa do justo, do bom, do honesto. Já a dupla Solano e Trindade, atenta a cada movimento ao seu redor, transforma em música a narrativa que lhes cabe na trama.

Sensibilizados com a situação da moça, bem como indignados com outras figuras de má índole presentes na novela, registram de maneira poética suas impressões a respeito da existência, dos desvios de conduta e dos subterfúgios em que se escoram os ruins para justificarem suas derrapadas no campo da retidão. Algo que lamentam, como pontua Trindade:

“Somos cantadores / Não perseguimos a glória / Eu também gostaria / De aliviar nossas dores / E mudar a história”.

João Batista de Andrade constrói a ação somando prosa e poesia, algo enriquecedor, ainda mais se considerarmos que, além dos compositores, as personagens expressam-se em versos, cabendo ao narrador conduzir a trama. Engenharia textual criativa, bem alinhavada e atrativa ao leitor.

Outro ponto de destaque é a perspicácia do autor em nomear os participantes da obra de acordo com a essência de cada um. Poliana, como sabemos, define-se pela pureza e graciosidade, pela ingenuidade e crença no lado bom das pessoas. Benkisto vem de benquisto, a antítese do homem ardiloso e cruel que se revelou. Na verdade, o que ele deseja ser, mas não é. Buenura mostra as qualidades positivas, a postura límpida do dono do bar. Solano e Trindade, especulo com o direito de errar, pode ser uma homenagem ao poeta, folclorista, ator, teatrólogo e cineasta pernambucano Solano Trindade, conhecido como “o poeta do povo”, um dos nomes mais importantes do movimento negro do país. Um homem dedicado às artes e à luta por justiça.

Há uma pergunta, no entanto, que acompanha a leitura desde o início: qual a relação de Badajoz e da Guerra Civil Espanhola com tudo o que é apresentado no texto? Com extrema habilidade, João Batista de Andrade nos conduz à resposta que, para muitos de nós, pode ganhar um forte eco devido a tudo o que presenciamos nos últimos tempos.

Fernando Brengel

Sobre o autor

Doutor em Cinema pela ECA, em que também lecionou, João Batista de Andrade é cineasta, contando 40 filmes como diretor, entre eles o premiado “O homem que virou suco”. Dedicado às letras, publicou cerca de uma dezena de livros, em que figura o recente “Ecos de Badajoz”. Com passagens como secretário da Cultura do Estado de São Paulo e presidente do Memorial da América Latina, recebeu o troféu Juca Pato de Intelectual do Ano de 2014. Sua carreira, iniciada nos anos 1960, é uma das mais brilhantes e extensas do panorama cultural brasileiro. Um artista que vem influenciando gerações com sua inteligência e talento.

Serviço

“Ecos de Badajoz, uma fábula de nosso tempo”, João Batista de Andrade. Editora Patuá, 2025, à venda na Amazon, bem como pelo site da editora: www.editorapatua.com.br.

Fernando-Brengel-quadrado

Fernando Brengel é publicitário formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP — ele entrou na turma 1982, mas acabou fazendo o curso de Publicidade e Propaganda com a turma de 1983. É diretor de criação da agência Presença Propaganda e diretor da Empório Barilotto Bebidas & Sabores.

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