“O Santo Inquérito”: aos 60 anos, peça permanece atual

Com personalidade própria, montagem da Turma 75 da Escola de Arte Dramática recupera a obra de Dias Gomes e revela seus inquietantes diálogos com o Brasil de 2026

É sempre um risco encenar uma peça que já ganhou tantas montagens e interpretações marcantes. A comparação acaba sendo inevitável – ainda mais quando se trata de um clássico escrito por Dias Gomes e levado aos palcos, ao longo de décadas, por atrizes como Eva Wilma (1966), Isabel Ribeiro (1976) e Regina Duarte (1977), entre outras.

Mas a montagem de “O Santo Inquérito” realizada pela Turma 75 da Escola de Arte Dramática da ECA-USP, sob direção de Abílio Tavares, não se intimida diante desse histórico. Ao contrário: assume o texto com segurança e constrói uma encenação cheia de personalidade.

Fui assistir a uma das apresentações no TUSP Maria Antonia, dentro da programação “EAD celebra os 60 anos da ECA”, e saí do teatro não apenas impressionada com a atualidade da obra, mas também com a força de uma nova geração de atores formada pela EAD que começa a chegar aos palcos.

Os jovens atores entregam tudo. Há intensidade, presença, comprometimento e uma evidente confiança no trabalho coletivo.

Um texto de 1966 diante do Brasil de 2026

Escrita e encenada pela primeira vez em 1966, apenas dois anos depois do golpe militar, “O Santo Inquérito” completa seis décadas com uma atualidade impressionante.

Dias Gomes recorreu à Inquisição no Brasil colonial para falar da repressão política de seu próprio tempo. O Santo Ofício representava o aparelho autoritário do Estado; os interrogatórios remetiam aos inquéritos políticos; e a confissão exigida de uma pessoa inocente evocava os mecanismos usados para fabricar culpados, impor versões oficiais e silenciar qualquer pensamento considerado perigoso.

Sessenta anos depois, a montagem da EAD recoloca a obra diante de outro Brasil. E a pergunta que orientou o processo conduzido pelo diretor Abílio Tavares – “Será que essa história ainda encontra ecos no Brasil de hoje?” – ganha resposta ao longo da apresentação.

Afinal, a intolerância continua presente. Mudam os discursos, os instrumentos e as instituições, mas permanecem a tentativa de controlar comportamentos, a recusa ao diferente, a transformação de convicções particulares em verdades absolutas e a fabricação de inimigos em nome de uma suposta “causa maior”.

Branca Dias entre a liberdade e o dogma

A peça se passa na Paraíba, em 1750, e apresenta Branca Dias (brilhantemente interpretada por Marília Viana), uma jovem descendente de cristãos-novos cuja espontaneidade passa a ser interpretada como ameaça.

Branca salva o padre Bernardo de um afogamento fazendo respiração boca a boca. Mal sabia ela que esse gesto natural de solidariedade se tornaria o ponto de partida para sua condenação. Aquilo que para ela é inocente adquire, aos olhos do padre, significados ligados ao pecado, à tentação e à culpa.

É Branca quem afirma: “Acho que as boas ações só valem quando não são calculadas. E Deus não deve levar em conta aqueles que praticam o bem só com a intenção de agradar-Lhe.”

A frase sintetiza sua maneira de estar no mundo. Branca não pratica o bem para receber uma recompensa, demonstrar obediência ou provar sua devoção. Não se trata de um toma lá, dá cá com Deus. Ela salva o padre porque aquele é o gesto humano e espontâneo diante de alguém que está morrendo. É o certo a fazer.

Mas, a partir desse episódio, seus costumes, suas palavras, sua maneira de amar e até sua relação com o próprio corpo passam a ser investigados. Cada explicação oferecida por ela é reinterpretada pelos inquisidores. Não importa o que diga: o tribunal já decidiu o que deseja encontrar.

Esse é um dos mecanismos mais perturbadores da peça. O inquérito não existe para descobrir a verdade, mas para confirmar uma verdade previamente estabelecida. As perguntas não procuram respostas. Procuram confissões.

A frase destacada pela própria montagem – “Tudo é uma questão de interpretação. Depende da posição em que a gente se encontra” – ganha, no Brasil de 2026, novas e preocupantes camadas. Em um ambiente marcado pela desinformação, por versões deliberadamente manipuladas dos fatos e pela dificuldade crescente de construir referências comuns de realidade, interpretar também pode se tornar um exercício de poder.

Não se trata apenas de reconhecer que um acontecimento admite diferentes pontos de vista. Trata-se de perceber como a interpretação pode ser usada para distorcer fatos, atribuir intenções e transformar pessoas em culpadas.

Padre Bernardo realmente dá medo

Padre Bernardo é provavelmente o personagem mais complexo de “O Santo Inquérito”. Sua força dramática está justamente no fato de que ele não se considera um homem mau. Ao contrário: acredita estar agindo para salvar Branca.

Incapaz de aceitar a espontaneidade da jovem e de enfrentar as próprias contradições e desejos (ah, a luxúria parece transbordar de todos os seus poros!), ele projeta nela a culpa que sente. Branca precisa ser pecadora porque sua inocência coloca em xeque a maneira como ele compreende o mundo.

O padre representa um tipo de autoritarismo particularmente perigoso: aquele que se acredita moralmente justificado. Não é apenas o agente que obedece a uma ordem ou exerce mecanicamente uma função repressiva. É o inquisidor convicto, que interpreta a violência como dever e a perseguição como instrumento de salvação.

No contexto de 1966, ele remetia aos defensores da ditadura que se julgavam responsáveis por proteger o país da “subversão”. Em 2026, também pode ser reconhecido naqueles que tentam impor seus valores, suas crenças e seus modos de vida aos demais, sempre em nome da moral, da ordem, da religião, da família ou de alguma verdade considerada incontestável.

Vitor Ugo constrói um padre Bernardo assustador em sua convicção e em sua incapacidade de enxergar a violência que pratica. Depois da apresentação, tive a oportunidade de conversar com o ator e fui bastante direta: “Seu padre Bernardo me deu medo!” Foi um elogio – e dos grandes.

Quando cenário, figurino e luz também atuam

A personalidade da montagem não está apenas na atuação. O cenário e os figurinos de Marco Lima e a iluminação de Mário de Castro não funcionam como simples apoio para a ação: tornam-se, de certa forma, personagens da peça.

A encenação não procura reproduzir realisticamente a Paraíba de 1750. Enquanto Branca conserva referências visuais do período colonial, os personagens masculinos usam roupas contemporâneas. Essa escolha desloca o inquérito para além de um momento histórico específico e aproxima a violência do presente.

O cenário cria diferentes planos e possibilidades de exposição, vigilância e isolamento. A iluminação, por sua vez, conduz o olhar, acentua o clima opressivo e participa da construção do tribunal que progressivamente se fecha em torno de Branca.

Esses elementos ajudam a dissolver as fronteiras entre os três tempos colocados em diálogo: o Brasil colonial de 1750, o Brasil da ditadura em 1966 e o Brasil de 2026. A intolerância muda de roupa, mas continua em cena.

A consciência como último espaço de liberdade

O confronto final concentra o sentido político e humano da peça. Condenada, Branca ainda pode salvar a própria vida, desde que aceite abjurar suas ideias e confirme a versão construída por seus acusadores.

O tribunal não quer apenas puni-la. Quer dobrá-la. Quer que ela participe da própria destruição. Quer que reconheça como verdade aquilo que sabe ser mentira.

Branca se recusa. Ceder significaria sobreviver fisicamente, mas deixar de ser quem é. Ao rejeitar essa possibilidade, ela preserva o único território que os inquisidores não conseguem dominar: sua consciência.

Sua religiosidade é muito diferente daquela representada pelo tribunal. Para Branca, Deus não está no medo, na culpa ou na obediência cega: “E é no amor que a gente se encontra com Deus. No amor, no prazer e na alegria de viver.”

É justamente essa concepção livre, generosa e vital da fé que o padre Bernardo e os inquisidores não conseguem tolerar.

No momento em que Branca perde o medo, inverte-se a relação de poder. O tribunal pode condenar seu corpo, mas não consegue obter sua submissão. Ela morre, porém a Inquisição fracassa em sua tentativa de convertê-la na personagem que havia fabricado.

Sua resistência dá à obra uma dimensão que ultrapassa tanto o episódio colonial quanto a ditadura brasileira. “O Santo Inquérito” fala sobre o direito de existir sem aceitar as identidades, as culpas e os silêncios impostos pelo poder. Fala sobre a dignidade de permanecer fiel à própria verdade quando todas as estruturas ao redor exigem renúncia.

Memória, formação e resistência

A apresentação no TUSP Maria Antonia amplifica o significado da montagem. O prédio abrigou a antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e foi um importante espaço de produção intelectual e resistência durante a ditadura. Em 1968, tornou-se cenário da chamada Batalha da Maria Antônia. Assistir ali a uma obra sobre perseguição, autoritarismo e liberdade de consciência inevitavelmente aproxima palco, memória e história.

A montagem também reafirma o papel da Escola de Arte Dramática na formação de novas gerações e na preservação crítica da dramaturgia brasileira. Celebrar os 60 anos da ECA não significa apenas rever o caminho percorrido, mas colocar esse legado novamente em movimento, diante das questões do presente e em contato com a sociedade.

Dias Gomes foi um dos maiores dramaturgos brasileiros, capaz de transformar circunstâncias políticas e sociais concretas em conflitos humanos que permanecem reconhecíveis muito tempo depois. Foi assim em “O Pagador de Promessas”, “O Bem-Amado” e “Roque Santeiro”. E é especialmente assim em “O Santo Inquérito”.

Ao final da apresentação, a dúvida sobre a relevância de se montar essa peça hoje não existe mais. Mas talvez outra pergunta deva nos deixar mais preocupados: por que, 60 anos depois, continuamos reconhecendo tão facilmente em nossa sociedade os mecanismos de intolerância, perseguição e manipulação denunciados por Dias Gomes?

Jennifer Monteiro

O Santo Inquérito

Texto: Dias Gomes
Turma 75 da Escola de Arte Dramática — EAD/ECA-USP
Encenação e direção geral: Abílio Tavares
Diretor pedagogo: Ruy Cortez
Orientação teórica: Antônio Rogério Toscano
Orientação no trabalho de voz: Mônica Montenegro
Elenco: Abraão Kimberley, Dennys Roberty Evangelista, Felipe Andrade, Hysnaip, Marília Viana, Rodrigo Kantovitz e Vitor Ugo

Equipe de “O Santo Inquérito”

Equipe depois da exibição da peça no Tusp Maria Antonia
Equipe depois da exibição da peça no Tusp Maria Antonia
Jennifer-Monteiro

Jennifer Monteiro é publicitária formada pela ECA-USP (turma 1983), com pós-graduação em Comunicação Digital também pela ECA. É sócia da Presença Propaganda e uma das integrantes do ÁgoraECA.

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