
O pior dia de ser uma estudante da USP ocorreu dentro da PUC-SP. Por sinal, se você quiser detalhes da denominada Invasão da PUC, ocorrida em 22 de setembro de 1977, procure em uma inteligência artificial. Ela não poupará fatos nem personagens. Mas há algo precioso que nenhuma IA tem: a experiência.
Nesta noite, estávamos no campus da rua Monte Alegre para referendar o Terceiro Encontro Nacional de Estudantes. Reuniões políticas, grandes ou pequenas, eram proibidas no Brasil sob a ditadura militar. Daí, tome botas, cassetetes, bombas de gás lacrimogênio e de efeito moral. Houve estudantes feridas. Quanto a mim, legítima Libelu, tremi de medo enquanto descia as rampas do então prédio novo (hahahaha, hoje prédio velho).
O coronel da vez juntou mais de mil estudantes num estacionamento em frente à universidade. Megafonou: “Quem for da PUC está liberado, quem for da USP está preso!” Fez isso porque não conseguiria distinguir os puquianos que assistiam a aulas dos que estavam fazendo subversão. Já os uspianos não tinham aulas para assistir. Na sequência fomos embarcados em dezenas de ônibus da CMTC e levados para o Batalhão Tobias Aguiar na avenida Tiradentes. Passamos a noite.
Fomos fotografados e fichados (as informações seguiriam para o temido DOPS). Meu número, lembro, foi 1964. Não pude deixar de sorrir com a coincidência. No meio da madrugada, em meio a preleções de “quão ingratos e baderneiros éramos” recebemos um misto frio em pão dormido. Pela manhã, fomos soltos lentamente.
Em frente ao Batalhão, meus pais, perseguidos pela ditadura, me saudaram com entusiasmo. Estavam orgulhosos com a filha. No final da tarde, no centro acadêmico da ECA, fui encontrando os amigos. Estávamos ressabiados com a violência. Nos dias seguintes à invasão, percebi que nunca mais seríamos alegres como antes.
fernanda pompeu (Cinema 1977)


Fernanda Pompeu estudou Cinema na ECA. Pertence à combativa geração de 1977. Hoje é escritora de literatura, autora de 64, Escriba Errante, Quando eu era velha e Cá Camila.
Em 2027, lançará seu primeiro livro de crônicas: 40 Puxões na Orelha da Memória.
É criadora de conteúdo no Instagram: @fernandapompeu.escriba


