
Entrei na EAD como estudante em 2011. A USP só se tornou possível para mim graças a esse curso — e, ainda assim, o caminho foi árduo. O vestibular foi dificílimo: duas fases práticas, uma teórica e um estágio de três dias de aulas, avaliados por uma banca de professoras e professores da casa. Seiscentos candidatos disputavam vinte vagas.
Vinda de anos de formação em escolas públicas, eu não teria o preparo teórico para passar pela FUVEST — e, na época, não havia cotas para estudantes da rede pública. Cheguei à turma 63 aos 30 anos, com um bacharelado em Dança pela Anhembi Morumbi e três anos de estudos da Técnica Klauss Vianna com os professores Jorge Balbyns e Mônica Bamman.
Sempre tive fascínio pelo estudo do corpo. Hoje, entendendo melhor minha neurodivergência, percebo que não poderia ser diferente: o corpo sempre foi meu melhor suporte, meu chão, meu eixo de pesquisa como atriz autista em formação.
Para nós, que não compreendemos subtexto da mesma maneira que pessoas neurotípicas, encontrar uma pedagogia de atuação que não se apoia apenas em psicologização, mas no corpo — sua percepção, consciência, anatomia, movimento, dança, relação com a voz, com a palavra, com a improvisação, com a imagem, com a composição de cena — é um verdadeiro oásis em meio ao deserto neurotípico em que vivemos nossa “neurominoridade”.
Na Escola de Arte Dramática encontrei tudo isso em aulas com mestras que moldaram minha trajetória: Aninha Spirer, Raquel Fuser, Mônica Montenegro, Cristiane Paoli Quito, Bete Dorgam — além de diretoras convidadas como Isabel Teixeira, Carla Candiotto, Grace Passô e Kenia Dias, que se tornou mestra e parceira de trabalho e por quem tenho imensa amizade e admiração.
Tive também excelentes aulas teóricas com Silvana Garcia, Sandra Sproesser, Antônio Rogério Toscano e Zé Fernando. E fui dirigida por professoras da casa: Silvana e Mônica. A turma 63 era repleta de potências artísticas, que em sua maioria continuam trabalhando com teatro.
Todas as aulas e montagens me desafiaram e me formaram atriz. Me deram ferramentas para continuar a minha pesquisa sobre a intrínseca relação entre interpretação e movimento. A Escola mudou meu cenário. Mudou minha vida.
A partir dali, consegui trabalhar e viver como artista: atriz, diretora de movimento, palhaça, produtora, diretora e dramaturga. Aprofundei a pesquisa em corpo-cômico e dramaturgia, fruto de dez anos de treino de palhaçaria com Madame Quito e da pós-graduação em Dramaturgia pelo SESI.
Nesse percurso, recebi o diagnóstico de TEA nível 1, com TDAH e Altas Habilidades. Como o diagnóstico foi tardio, já havia desenvolvido comorbidades — mas, com tratamento especializado e suporte adequado, minha qualidade de vida melhorou muito, o que impactou diretamente na minha profissão: ano passado ganhei o concurso internacional de Dramaturgia “A Escrita das Diferenças” em que concorreram dramaturgas de diversos países de língua neolatina e passei no concurso de Orientadora da Escola de Arte Dramática da USP.
Estou radiante. Entrar nessa tradição de 78 anos de Escola é uma honra imensa. Fazer parte dessa ciranda, na escola que me formou, me deixa feliz de um jeito difícil de colocar em palavras. Será uma alegria dar continuidade à pesquisa sobre presença que germinou dentro desse jardim.
Ser professora também é isso: transmitir saberes que nos foram entregues com tanto amor por mestres e mestras e que antropofagicamente devoramos e transformamos. Agora, ver os alunes em sala de aula, dedicados aos estudos, criando e brilhando é um estímulo diário para aprofundamento da pesquisa.
Espero fazer bonito nesse ofício de ensinar, partindo sempre da escuta, ética, empatia, sinceridade, criatividade e da vulnerabilidade de ser quem sou: professora e artista PCD.
Que os Deuses e Deusas do Teatro iluminem a caminhada, que Dionísio brilhe em nossos corações e que a neurotipicidade não nos limite.
Evoé!
| Aluna | Turma | Curso |
|---|---|---|
| Ana Paula Lopez | 2011 (turma 63) | Escola de Arte Dramática |
| Professora | Ano | Curso |
|---|---|---|
| Orientadora de Arte Dramática | a partir de 2026 | Escola de Arte Dramática |


