
O meu nome na lista dos aprovados para a Escola de Comunicações e Artes no ano de 1975 marcou a minha entrada num portal para outra dimensão. Para mim, que sou produto do êxodo rural, nascida num oco de mundo, Juruaia, em Minas Gerais, tendo, entre idas e vindas, São Paulo como destino, representava o acesso à modernidade. Vivi minha infância aqui, no então sertão da Serra da Cantareira, retornei na adolescência para outra cidade em Minas, Guaxupé, mas fugi quando percebi que teria que me encolher para caber naquele mundo dos barões do café. Inda mais que já despontava em mim traços pronunciados de bicho-grilo.
A literatura sempre foi a minha paixão primeira, e é até hoje, então o caminho natural seria cursar Letras. Mas eu sabia que, além de ler, gostava de escrever, reportar, cronicar, e talvez o jornalismo fosse mesmo a melhor opção. Tendo só frequentado escolas públicas, ralei demais para entrar na USP. Fui a segunda de uma família encabeçada por pai lavrador e mãe lavadeira a entrar na universidade, o que na maior parte do tempo mais me isolasse dos meus do que fosse motivo de orgulho.
Um poema do meu amigo Donizete Galvão, Vida minúscula, também mineiro, retrata bem esse sentimento:
para quem nasceu destinado à terra
à enxada
às tarefas
às lidas com o gado
a descoberta da língua
para além do uso ordinário
e dos livros
traz um veneno
que o aparta dos seus
extravia-se
vive-se à margem
deseja sem saber o quê
tateia em um mundo
que sempre lhe será estranho
Entrar na USP significou me equilibrar entre o arcaico e o moderno, entre aprender a respeitar de onde eu vim, mas com senso crítico, e aprender a me mover num universo cheio de novidades, algumas que eu não entendia, mas que me fascinavam.
No curso básico, éramos muitos e plurais, o momento político exigia luta, a começar pela deposição do diretor da escola, e assim foram seis meses de greve, sem aula, mas de muita mobilização, o início da relação daquela turma com o gramado em frente à ECA. Enquanto não voltávamos para a sala de aula, trocávamos indicações de livros, de filmes, descobrimos o Cepeusp e sua piscina maravilhosa, nossos corpos, fomos nos conhecendo social e “biblicamente”, formando turmas, organizando festas em repúblicas, nos juntando em happy hours no Bat Pinga, no Rei das Batidas, no Cu do Padre, ou onde nosso parco dinheiro bancasse. Depois fomos nos esparramando pela cidade, ocupando o Bexiga, seus cineclubes e suas cantinas italianas, as salas de cinema da Praça Roosevelt, da rua Augusta.
Penso que a formação da minha turma e pelo menos da subsequente foi mais fora das salas de aula do que dentro delas. Vez ou outra arrumávamos treta com alguns professores fracos. O germe de rebeldia estava inoculado na gente.
O campus era uma mobilização permanente contra a ditadura, faixas com palavras de ordem, assembleias na História, na FAU. Passeatas nas ruas de São Paulo, desafiando um certo coronel que nos odiava, e às vezes até apanhando da guarda dele. Eu me sentia fazendo parte da História.
E no devagar depressa dos tempos a festa acabou, o mundo adulto nos esperava com seus muitos ônus e alguns bônus. Ainda tentei permanecer na USP, entrei na Letras pelo artigo 68, não concluí a graduação porque não consegui conciliar trabalho com estudo, mesmo porque o curso era bem puxado. O jornalismo, mesmo que por vias tortas, foi meu ganha-pão. Trabalhei muito tempo na Abril, praticamente até a sua derrocada.
Mas a minha ligação com a USP e com as letras continuou de uma ou de outra maneira. Desde 2008 faço parte da Oficina de Leitura Guimarães Rosa ligada ao Instituto de Estudos Brasileiros, o IEB. E desde 2016 sou uma das coordenadoras da Oficina, um pretexto para continuar a pisar no solo sagrado da USP, que me formou e me performou. Quando calha de eu passar pela ECA, embora hoje o gramado seja um mero adorno, ainda ouço as nossas vozes, as nossas melhores risadas, e sinto, como diz a minha amiga Fernanda Pompeu, os nossos arrepios juvenis.
| Aluna | Turma | Curso |
|---|---|---|
| Regina Pereira | 1975 | Jornalismo |


