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No final dos anos 1970, ainda sob a ditadura militar, a política dava o tom e a melodia na Universidade de São Paulo. Na imensa maioria, éramos do contra. Pululávamos em assembleias permanentes, palavras de ordem e centros acadêmicos.
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Mas a ECA era também um caldeirão de expressões artísticas. Pelas suas paredes escorriam heranças das vanguardas europeias, o dadaísmo e o surrealismo. Projetavam-se novos cinemas, falava-se de poesias concretas. De happenings em salas de museus.
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Ligando tudo isso, o estímulo a uma imaginação embriagada. Nessa época, eu já era apaixonada pela escrita. Tinha meus caderninhos, minhas frases espoletas. Eu queria escrever um romance. Não fazia ideia do tema, apenas pensava personagens. Uma voaria; outra seria muda. Enredo? Para quê?
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Um amigo, aluno de Rádio e TV, me dizia: “Romance é gênero literário de burguês”. Burguês, na época, era palavrão. O amigo pretendia fazer um livro inteiro sem usar a palavra QUE. Tente adivinhar se ele passou de um parágrafo. É claro que não. O espírito reinante era o da contestação e do experimento. Quanto ao meu romance, escreveria anos mais tarde.
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Nas artes, ao contrário da política, não militávamos por um mundo possível: nós éramos o mundo possível. Compreenderia mais tarde que a fricção arte-política trazia o embate difícil entre individualidade e coletividade. Há os que tentam casar expressão pessoal com comprometimento social. Entretanto, até hoje prevalece o divórcio.
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São 4h51. Saí da cama, na madrugadinha, para estampar em palavras a história que agora você lê. É meu ofício: pôr o mundo, ora vasto, ora vagabundo, em frases. A memória da ECA não é exercício nostálgico ou conteudístico. É memória cozida em fogo alto.
fernanda pompeu (Cinema 1977)

Fernanda Pompeu estudou Cinema na ECA. Pertence à combativa geração de 1977. Hoje é escritora de literatura, autora de 64, Escriba Errante, Quando eu era velha e Cá Camila.
Em 2027, lançará seu primeiro livro de crônicas: 40 Puxões na Orelha da Memória.
É criadora de conteúdo no Instagram (@fernandapompeu.escriba) e escreve quinzenalmente para o ÁgoraECA.


