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Ilustração feita por IA a partir de foto tirada no gramadão da ECA na década de 1970
Ilustração feita por IA a partir de foto tirada no gramadão da ECA na década de 1970

Antes que minha memória bata as botas, fui visitar, cinquenta anos após o meu ingresso, a sempre amada Escola de Comunicações e Artes da USP. Tal amor é exagero de cronista? De jeito algum. A experiência, dos conturbados e brilhantes anos finais da década de 1970, ficou gravada no meu corpo a água e fogo, rock e passeatas, sexo e paixão, política e escrita, cinema e livros.

Minha geração ferveu no fundo de um caldeirão, marinado pela ditadura então vigente. Dessa fervura saíam protestos em forma de assembleias permanentes, ruas, e revoluções em páginas de caderninhos. Se perguntarem qual o cheiro da minha juventude, não vacilarei: álcool para mimeógrafo. Sim, éramos militantes. Ninguém pensava em ganhar dinheiro, queríamos um novo mundo.

Havia também uma vontade de beijar, transar, entrar no outro, ou na outra. Espichar-se no gramado ao som (dentro da cabeça) de Caetano: “Gosto muito de te ver, leãozinho / Caminhando sob o sol”. Fazíamos um milkshake danado entre derrubar a ditadura e flechar corações. No meio dessas funções, vagabundeávamos no gramado em frente à ECA.

Na última visita, fiquei surpresa. Domesticaram o gramado. Daqui a pouco vão pôr a plaquinha “Não pise na grama”. Exagero de velha? Pode ser. Ou não. Afinal, para uma geração inteira aquele gramado foi uma espécie de set, não de filmagem, mas de vida real. Ah, quantos planos, esperanças, sonhos de sucesso. Quando somos jovens, achamos que daremos certo.

Fernanda Pompeu (Cinema 1977)

* O ÁgoraECA ganha uma nova voz: Fernanda Pompeu é a nossa nova colunista convidada e passa a assinar, periodicamente, crônicas que revisitam as memórias de seus anos de estudante na ECA, no final da década de 1970.

* Veja vídeo-crônica da Fernanda sobre o gramadão: Gramadão da ECA – ontem e hoje.

* Confira a foto original que serviu de base para a ilustração deste post, na crônica de Aldo Della Monica: Fazíamos parte de um mundo pensante, crítico e cheio de energia.

* E fica o convite: quer também compartilhar conteúdos relacionados à ECA? Fale com a gente. O espaço do ÁgoraECA também é seu!

A escritora Fernanda Pompeu
A escritora Fernanda Pompeu

Fernanda Pompeu estudou Cinema na ECA. Pertence à combativa geração de 1977. Hoje é escritora de literatura, autora de 64, Escriba Errante, Quando eu era velha e Cá Camila.

Em 2027, lançará seu primeiro livro de crônicas: 40 Puxões na Orelha da Memória.

É criadora de conteúdo no Instagram: @fernandapompeu.escriba

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