
“Nunca Mais”, novo livro do jornalista e escritor Camilo Vannuchi, conta em detalhes os bastidores da elaboração de “Brasil: Nunca Mais”, obra que escancarou as atrocidades da ditadura militar de 1964
Histórias não registradas se perdem rapidamente e, com elas, a possibilidade de documentar passagens, entender fatos, estabelecer implicações, traçar perfis, de forma a preservar a memória e a verdade. Memória tantas vezes apagada e, por isso mesmo, alvo de especulações, de hiatos preenchidos com informações incorretas e, o pior dos cenários, mentirosas. Algo que deve nos mover a estarmos constantemente alertas a pessoas e grupos que, sem o menor escrúpulo, tentam reescrever o tempo de maneira a obter ou preservar benefícios, limpar a imagem, manter o poder a qualquer custo.
Consciente dessas questões, a advogada Eny Raimundo Moreira foi tomada por um profundo senso de responsabilidade. Profissional atuante no escritório do advogado e jurista Sobral Pinto, defensor na Era Vargas de personalidades do porte de Luís Carlos Prestes, secretário-geral do PCB, Eny foi alertada pelo dr. Sobral a respeito dos processos dos presos políticos que lutaram contra a ditadura militar de 1964. Caso não fossem preservados poderiam, assim como aconteceu no Estado Novo, sumirem sem deixar vestígios e, com eles, parte importante da história do Brasil seria, mais uma vez, soterrada para sempre. Era preciso agir o mais rápido possível.
Mas o que fazer?
Com a Lei da Anistia de 1979, abriu-se uma brecha formidável. Os advogados dos presos políticos, dos desaparecidos e anistiados poderiam consultar seus processos e, aí reside o pulo do gato, ficarem com a papelada durante 24 horas para consultas “aprofundadas”, como se em um dia fosse possível ler os calhamaços e devolvê-los. Impossibilidade para uns, que se transformou em uma oportunidade de ouro para a inquieta advogada.
Eny procurou o colega Luiz Eduardo Greenhalgh, um dos nomes mais importantes do Direito, dedicado a atuar com os opositores do regime encarcerados pela repressão, com um plano mirabolante. Os volumes seriam retirados, fotocopiados e devolvidos no prazo, de maneira a proteger o material relativo aos Anos de Chumbo.
A ideia precisava, no entanto, ser afinada. O projeto demandava investimento, dinheiro para ser aplicado nos recursos humanos e materiais necessários. Mais: o absoluto sigilo era condição sine qua non para evitar que a ditadura colocasse as mangas de fora e torpedeasse as atividades.
Greenhalgh, sem pensar duas vezes, procurou o cardeal de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns. Sua inteligência e bravura na luta pelos direitos humanos eram amplamente conhecidas. Ele poderia ajudar como ninguém a concretizar os planos traçados. Bingo! Dom Paulo abraçou a proposta que resultaria, em 1985, no livro “Brasil: Nunca Mais”, relato de consistência ímpar a respeito do período de exceção. Volume até hoje consultado e citado devido à sua importância.
De maneira a contar a saga que se tornou a realização da iniciativa, o jornalista Camilo Vanucchi escreveu “Nunca Mais”. O livro, eletrizante, transcorre como um thriller revelador dos meandros envolvidos na concepção de “Brasil: Nunca Mais”.
Repleto de ação, avanços, revezes, escaramuças, dúvidas, erros e acertos, “Nunca Mais” lista, pela primeira vez, os integrantes que deram forma a “Brasil: Nunca Mais”. Na época, por questões de segurança, ninguém assinou a obra, exceto o prefácio, de autoria de Dom Paulo Evaristo Arns. Além disso, Camilo Vanucchi descreve como foi estruturado o esquema das cópias em Brasília, o transporte até São Paulo de cerca de 1 milhão de folhas, as trocas de escritório em que eram organizadas e guardadas e, finalmente, a ideia de Dom Paulo em transformá-las em um livro em torno de 300 páginas, algo originalmente não imaginado. Segundo o cardeal, o público deveria ter acesso ao resumo do vasto conteúdo produzido.
Sucesso editorial instantâneo, “Brasil: Nunca Mais” manteve-se durante quase dois anos entre os mais vendidos e, para deixar de orelha em pé aqueles que seviciaram pessoas país afora, das declarações contidas em mais de 700 ações judiciais foram identificados 444 torturadores, entre eles os temidos coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, codinome dr. Tibiriçá, comandante do DOI-CODI SP, e o delegado Sergio Paranhos Fleury, do DEOPS paulista.
“Nunca Mais” é também o termômetro de uma época em que o país navegava entre a esperança e a incerteza. De um lado, a sociedade civil voltava a se organizar, os sindicatos podiam atuar mesmo que de forma cautelosa, houve um abrandamento da censura e o general Figueiredo, último presidente do período militar, prometia o retorno ao estado de direito nem que fosse na base do “prendo e arrebento”, declaração voltada àqueles que tentassem impedir a abertura política. De outro, grupos insatisfeitos com os rumos da distensão tentavam resistir aos avanços democráticos. O fracassado atentado ao show do Primeiro de Maio realizado no Riocentro, as bancas queimadas por venderem jornais alternativos e a bomba que explodiu nas mãos da secretária da OAB, Lydia Monteiro da Silva, matando-a, representavam as pontas de um traiçoeiro iceberg sinalizando que, a qualquer momento, o almejado caminho da volta à normalidade poderia vir a naufragar. Temores, entre tantos outros, que acompanharam, do começo ao fim, a elaboração do “Brasil: Nunca Mais”.
A obra de Camilo Vannuchi foi lançada no final de março de 2026 no Memorial da Resistência em São Paulo. Simbolismo extremamente apropriado. O museu localiza-se no prédio em que funcionou o DEOPS, um dos centros de tortura mais sangrentos do regime. A solenidade contou com as presenças de Frei Betto, integrante da força-tarefa que produziu o “Brasil: Nunca Mais”, Vera Paiva, filha de Rubens Paiva, e Zé do Egito, responsável por microfilmar a totalidade dos processos. Adriano Diogo, ex-deputado estadual e um dos presos e torturados no DOI-CODI SP, bem como o ator Danton Mello, também estiveram presentes. E aí cabe um adendo.
Em breve “Nunca Mais” estará nas telas dos cinemas, tendo Danton como personagem central. A obra, no entanto, já virou podcast. Narrada pelo autor, está disponível gratuitamente em todas as plataformas de áudio e no YouTube. Cereja do bolo, Camilo Vanucchi foi agraciado com o Troféu Audálio Dantas pelo seu trabalho voltado à preservação daquilo que, como comentado no início deste texto, jamais pode se perder: a memória. Esta que nos faz bradar a plenos pulmões: Ditadura Nunca Mais!
Fernando Brengel

Sobre o autor
O jornalista, escritor e professor Camilo Vannuchi é bacharel, mestre e doutor formado pela ECA-USP. Publicou duas dezenas de livros de não ficção, entre eles “Jovem Guarda e Tropicália” (2016) e “Vala de Perus, uma Biografia” (2020). É autor das biografias “Marisa Letícia Lula da Silva” (2020), “Eu Só Disse Meu Nome” (2024) – sobre seu primo Alexandre Vannucchi Leme, assassinado pela ditadura militar – e “Dom Angélico, um Abraço de Quebrar os Ossos” (2025). Foi membro e relator da Comissão da Verdade da Prefeitura de São Paulo (2016) e secretário de Cultura de Diadema (2023-2024).Idealizou, roteirizou e apresentou os podcasts Vala de Perus, Eu Só Disse Meu Nome, Nunca Mais e Caso Herzog.

Serviço
“Nunca Mais”, Camilo Vannuchi. Editora Discurso Direto, 2025, 240 páginas, brochura. Ilustrações de Mônica Vaz. Apresentação de Marco Aurélio de Carvalho, Gisele Cittadino e Bruno Salles Pereira Ribeiro. Prefácio de Jamil Chade. À venda no site www.discursodireto.com.br, na Amazon, Livraria da Travessa, entre outras.

Fernando Brengel é publicitário formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP — ele entrou na turma 1982, mas acabou fazendo o curso de Publicidade e Propaganda com a turma de 1983. É diretor de criação da agência Presença Propaganda, diretor da Empório Barilotto Bebidas & Sabores e colaborador do ÁgoraECA.


