
Sexo e Comunicação com muita Arte
Por Nabil Arida
Era uma vez uma faculdade na USP que… Ou melhor: uma escola nessa universidade; melhor ainda: uma universidade dentro de uma escola. Exatamente essa pluralidade explosiva de criatividade e multitalentos da Escola de Comunicações e Artes da USP é que nos obrigou à diferenciação, a pensarmos fora da caixa, tal qual um pensamento em Vênus (ops!) enquanto a caixa seria a Terra distante. Ah… esses ecanos no “mundo da lua”, acho que já estamos a anos-luz da comparação.
Amigos jornalistas começariam o texto citando a origem de “trote”, do francês antigo trottar, do latim antigo trottare, um andar do cavalo intermediário entre o passo e o galope. Aqui, com influência portuguesa, passou a significar fazer alguém andar ou agir sob comando, alguém submetido a um ritmo imposto por outro. Poderíamos discorrer historicamente sobre submissão ritual, humilhação, submissão controlada (muitas vezes fora de controle), depois brincadeira, tradição, simbologia, naturalizar a assimetria, falsa/ pseudo hierarquia, etc etc, seriam discussões chatas.
Amigos audiovisuais diriam: – Corta! Mudando de cena e de plano: o ano era 1985. Estava no segundo ano de Publicidade e Propaganda noturno, mas adiantando créditos do terceiro no matutino (enquanto matava aulas na Poli) e convivendo com o pessoal ingressante de 83, como a querida Jennifer Monteiro (PP) que praticamente “me obrigou” a este relato. Vários me diziam que deveria “bolar” (gíria estranha hoje) um “trote diferente” para os calouros. Juntamente com meus colegas ingressantes de 84 Lu Ota e Maurício Maia (Jornalismo) começamos um brainstorm de como deveria ser o “trote cultural”, pois obviamente não compactuávamos com nenhum trote violento, desnecessário, altamente etílico e certa perversidade sádica de desperdício de tintas, ovos e farinha. Colegas jornalistas diziam sobre palestras educativas, um roteiro guiado na Cidade Universitária, colegas veteranos de Turismo adoraram a ideia… mas naquela época a profusão de hormônios em ebulição juvenil só me fazia pensar na palavra SEXO. Ora, ora… somos ecanos, nada que possa nos chocar dentro da ética com humor e irreverência.
Não era para ser algo muito oficial, como por exemplo o Concurso de Outdoor (aula do professor Dorinho), onde ganhamos, Serginho Teixeira (PP matutino) e eu. A Central Brasileira de Outdoor cedeu as folhas e a instalação. Passamos dias pintando nas férias as folhas à mão e depois instalaram frente ao CEPEUSP dando boas-vindas a todos calouros da Cidade Universitária com apoio da Reitoria. Queríamos algo inusitado… algo só para ECA, a cara da ECA.
Então, convenci os colegas que passeios, dicas universitárias e palestras culturais seriam bons num segundo momento, que deveríamos aproveitar o momento único e impactante ao público-alvo/ consumidor/ calouros e apresentar o “produto/ serviço” com o melhor denominador comum: sexo, com uma certa dose de humor criativo cultural. Finalmente aceitaram minha ideia. Uma brincadeira, sem humilhação e descortinando o Novo Mundo da irreverência, do sexo, com certo humor subliminar, um ritual de passagem. E que passagem…
A ideia era pedirmos autorização à diretoria e aos professores para usarmos o anfiteatro na terceira semana de aula, para uma grande palestra para todos os cursos da ECA. Décadas depois aprendi que a arte de ser vago nas respostas, usando cordialidade e rapport / empatia, ajudava na aprovação de projetos não muito claros, numa linguagem muitas vezes dúbia, não verbal e hipnótica. Argumentei que o resultado mercadológico seria maior sendo na terceira semana de aula para não caracterizar um trote. A estratégia estava formatada. Ótimo! Mas qual seria o assunto? Sexo, claro. De que forma? Como parecer cultural? Sexo e Comunicação… Eureka! Ou melhor: EurECA! Isso mesmo: Sexo e Comunicação com uma boa (e generosa) dose de Arte.
Num imediato e rápido brainstorm: Sexo e Comunicação > Sexo na mídia (mas eram os anos 80) > Sexo nas revistas? Falar sobre escrever matérias de revistas de nudez? Ou como diagramar? Retocar os fotolitos das mulheres peladas? (início do que seria um dia o Photoshop…) Nada disso. Filmes pornôs! Início da Abertura Política com as famosas pornochanchadas, anos 70 e 80. “Pornô” era referência ao conteúdo sensual. “Chanchada” do gênero de comédia leve musical popular nos anos 40-50. Apesar do nome, a maioria não era pornografia explícita, mas sim filmes com nudez, humor picante e situações insinuantes. Era um gênero comercial, barato e extremamente popular. Produzidos na Boca do Lixo, na região central de São Paulo (especialmente Rua do Triunfo). Funcionava como uma Hollywood paulista de baixo orçamento. Era a concentração de produtoras independentes, distribuidoras, laboratórios de filme, atores e diretores. Como publicitário, não vamos nos alongar sobre os preconceitos temporais, sucesso de marketing por causa de baixo custo e alta bilheteria, como se driblava a censura com humor e metáforas, demanda latente de público adulto em busca de entretenimento etc.
Vamos aos porquês com uma rápida e malfeita investigação junguiana do inconsciente: passei todas as férias da infância e adolescência em Santos. Desde os 17 anos assistia e (quando me deixavam, bairrismo deles) jogava futebol de areia em frente ao meu prédio no Canal 3 com os mais velhos. Point era o Chá-Mate do Paraná, que era o mais velho e organizava tudo, cujo filho, criança na época, depois fez FAU. A estrela dos jogos era nosso colega veterano da ECA: Nuno Leal Maia, atlético, tímido, era 14 anos mais velho que eu, tinha feito Artes Cênicas e, antes da fama nas novelas, era astro no futebol de praia (até se tornou depois treinador) e nos filmes da pornochanchada. Um pouco mais alto que eu, estava sempre rodeado por gatas delicio… ops! A interface é muito tênue entre a lembrança documental e meus desejos imberbes na época de um dia estar no lugar dele rodeado por tantas daquelas…
Baseado nisso, disse que deveríamos passar uns filmes desses enquanto teria palestra do diretor dos filmes que conversaria com os alunos de todos os anos, contando como se faz um filme pornô, as curiosidades dos bastidores. Estariam presentes também atrizes e atores dessas pornochanchadas do cinema nacional, inclusive até alunos da ECA de Cinema e RTV que trabalhavam como estagiários na produção.
Prontifiquei-me a ser o diretor. Pelópidas Cypriano (Cinema) seria o estagiário. Reinaldo Guedes (RTV) seria ator pornô, algumas colegas de Artes Cênicas vieram e encararam como um belo exercício de improviso e interpretação (eram da turma do Gabriel Villela, não recordo os nomes, mas uma delas usou o criativo nome artístico de Jéssica Valo, uma potranca), atrizes se revezavam para Palestra/Trote no matutino e no noturno, Jane Foltran (RP), Estela Silva (RP), Carla Risso (PP noturno), Ariadne (PP) e mais quase uma dezena de colegas. Não me recordo de todos e adoraria saber mais nos comentários. Havia também uma meia dúzia envolvidos nos bastidores (além da Lu Otta e Maurício Maia, ambos Jornalismo), os que fizeram a logística de conseguirem os pesados monitores de RTV, caixas de som e principalmente as fitas Betacam (nem eram ainda usuais os videocassetes) de alguns desses filmes para serem passados com as cenas mais picantes (desculpem o trocadilho) enquanto falávamos ao público. Um envolvimento de vários veteranos, de vários anos, de vários cursos. Todos devidamente caracterizados, acentuando estereótipos: diretor com blazer branco, camisa vermelha com uns colares e anéis bregas; atores com volume acentuado nas calças onde escondiam um lenço enrolado aumentando as coisas; atrizes com roupas super provocativas, enormes decotes, saias minúsculas e maquiadas como se tivessem saído de um bordel. Ahhh… a metalinguagem cênica e cínica, a união ecana ecoa…
Passei um rápido briefing aos colegas para improvisarmos com os relatos mais absurdos e chocantes no nonsense criativo. Também pedi a alguns colegas, também veteranos, na plateia, para começarem a perguntar coisas cabeludas (desculpem novamente o trocadilho, eram os anos 80). Isso induzia os calouros a perguntarem e interagirem, afinal nós sabíamos quem eram os calouros, mas eles não sabiam quem eram os veteranos. Alguns professores também assistiam lá no fundão e se divertiam.
As perguntas eram descabidas (ou nem tanto), depois de ativados e induzidos, calouros e calouras começaram as indagações mais curiosas como: “Você engole ou cospe?”, “Vocês alguma vez gozaram de verdade em cena?”, “Vocês também se prostituem?” (para as atrizes). E aos atores homens: “Você é casado? Sua esposa não sente ciúmes? Como conseguem manter tanto tempo a ereção?”, “Como vocês ejaculam tanto?” (não existiam pílulas mágicas vasodilatadores como sildenafila ou tadalafila), “O que faz um diretor pra dirigir uma cena de sexo?”, “Como começou a carreira de diretor?”
Obviamente as respostas eram no mesmo nível ou piores: “Engulo se der vontade, se não deu tempo de tomar café da manhã”, “Só quando rola zoofilia porque os cavalos adoram”, “Jamais me prostituiria, ainda penso em um dia voltar ao convento onde fui noviça”, “Sou casado com um travesti e ele só tem ciúmes quando eu beijo na boca”, “Pra manter ereção eu penso no crediário que estou pagando pra comprar uma TV nova, ou mesmo na minha avó que eu espionava quando criança, quando ela tomava banho”, “Pra produzir mais esperma a gente toma Caracu (cerveja preta) com ovo e fica sem gozar por 15 dias”, “Um diretor deve ser metódico. Se eu digo pra chupar o seio direito e o ator chupa o esquerdo, eu paro a cena. Porque tudo tem um roteiro a seguir, não somos amadores, nada de improvisar”, “Comecei como dublê de ator, aqueles closes no membro bem-dotado, geralmente é de um dublê, depois fui ator, depois diretor por experiência, sou pau pra toda obra”. Divertido era que tínhamos vontade de rir, os veteranos na plateia tinham vontade de rir.
E o clímax era o final, quando não contávamos que era trote e ainda escrevíamos na lousa o endereço verdadeiro de algumas produtoras da Boca-do-lixo (buscávamos nas Páginas Amarelas) e dizíamos que estavam procurando estagiários meio período e inventávamos um salário razoavelmente tentador. Os falsos estagiários de Cinema e RTV corroboravam tudo e ainda diziam que era um ambiente familiar e muito receptivo. Calourada anotava avidamente os endereços para possível estágio.
Até me formar, fazíamos esse trote “cultural” no matutino e noturno, desmitificando e desmistificando sexo e comunicação e moralismos e preconceitos e discussões amorais com certa profundidade (mais uma vez perdoem-me o vil trocadilho). O sucesso foi tamanho que outras faculdades também queriam assistir. Depois de me formar, o trote continuou por mais alguns anos com o saudoso Marcelo “Cafa” Caldeira no papel do diretor, galera do Nélio Abade (Editoração /RTV), Maurício Buffa (Cinema), Luís “Lusão” (RTV) e outros tantos “que nem sei. Só sei que foi assim”.
Vez ou outra, meses após o trote, algum calouro nos encontrava passeando entre os blocos da ECA e jurava que achava que aquilo era verdade. Depois ríamos e relembrávamos detalhes esfumaçados. Bons tempos… dentro do contexto da época, de toda uma geração. Muitos aqui citados são hoje renomados professores, outros com carreira de destaque. Ninguém muda o passado, ainda bem. A jovialidade libertária impregnada n’alma. A coesão ecana em prol da criatividade, irreverência e conteúdo cultural. Tempos que não voltam mais. “Não adianta chorar sobre o leite derramado.” (Ops! Não pedirei desculpas).

Nabil Arida, 64, publicitário, professor de Marketing Estratégico e professor convidado da Poli (Engenharia de Produção). E jura que ainda sente falta das risadas rejuvenescedoras entre seus pares ecanos.
Nabil fez Publicidade e Propaganda na ECA entre 1984 e 1986, junto com a turma do noturno de 1983. Também estudou na Escola Politécnica da USP (Poli) entre 1980 e 1985.


