
Guardo a lembrança de descer a Rua Augusta a 40 km por hora. Dentro do ônibus, ia ensimesmada, concentrada na minha tarefa. O trajeto: da ECA até o Instituto Goethe, que, no final dos anos 1970, funcionava em um charmoso sobrado dessa rua, uma das mais icônicas da cidade.
Eu era uma espécie de cupido buscando paixões, em latas com filmes de 35 mm, para entregá-las ao projecionista do auditório do curso de cinema. Tínhamos acesso a uma filmografia muito instigante. Nos cinemas comerciais, o que grassava era o imaginário de Hollywood. Mas nós, estudantes da ECA, estávamos em uma ilha. Não deixávamos o cinemão morder nossos olhos.
Nossa fixação cinematográfica era então o “Novo Cinema Alemão”. Eu apreciava particularmente dois diretores: Fassbinder (1945-1982) e Herzog (1942-). Este último fez filmes encantados orquestrando fantasia e realidade de forma fascinante. Suas personagens eram disruptivas: loucos, anões, visionários. Gente para quem a sociedade, em geral, torce o nariz.
Mas é do Fassbinder minha mais cara recordação. No filme “Todos os outros se chamam Ali” (o título alemão é “O medo devora a alma”), uma viúva alemã de 60 anos conhece um marroquino de 30. Um casal improvável, se pensarmos no profundo preconceito europeu em relação aos imigrantes.
Os dois se casam e precisam encarar a hostilidade dos vizinhos, dos filhos e dos colegas de trabalho dela. Para muitos alemães, todos os árabes se chamavam Ali. Como para muita gente, todo nordestino é baiano, todo artista é vagabundo. Para mim, todo Novo Cinema Alemão convida ao sonho e à reflexão.
fernanda pompeu (Cinema 1977)

Fernanda Pompeu estudou Cinema na ECA. Pertence à combativa geração de 1977. Hoje é escritora de literatura, autora de 64, Escriba Errante, Quando eu era velha e Cá Camila.
Em 2027, lançará seu primeiro livro de crônicas: 40 Puxões na Orelha da Memória.
É criadora de conteúdo no Instagram (@fernandapompeu.escriba) e escreve quinzenalmente para o ÁgoraECA.


